quando me sinto sozinho
minha barriga esquenta
minha testa fica cinza
meu bilau fica magenta
vago altivo pela rua
misto de vadio e rei
ou gasto o que não tenho
em produtos do Ebay
abro a rede social
e curto tudo o que vejo
(já nem sei o que prefiro
– mais um like ou um beijo)
digo ir a um evento
marco alguém numa postagem
apago a luz e me cubro
mas não me foge a imagem
do dia que eu não tive
da mulher que não me ama
da sua cara lendo isso
– como é triste a minha cama.

poema-caralho

eu sou um temor eterno
de tudo que o mundo pisa
da mais forte das mulheres
à torta torre de pisa –
que vai cair e matar
meu eu sempre distraído
pois ao pé dela eu choro
ingrato por ter nascido.

eu sou um ressentimento
cru, pelado e curioso
que me mastiga as carnes
e me chupa até o osso.
eu me jogo nu no piso
piso em mim – o oroboro –
e acordo de ressaca
abraçado a um cachorro.

no mundo há cães memoráveis
– veja a Lassie e o Ritimtim.
mas não é desse feitio
o cão que se abraça a mim:
me arranha as canelas
e me rasga todo o terno
se eu não me largo dele
me arrasta pro inferno.

eu sou A frustração mor
já nasci na pré-escola
com lancheira do seninha
e mochila do frajola.
esperava ser doutor
ou o novo Zé Ramalho.
só logrei ser curador
desse poema-caralho.

Elza

há um fio de cabelo no céu da minha boca
 e ele não é meu
 e por isso meu amor não me conheceu
 nisso fiquei louca

eu acordo no meio da noite e a porta
 toda entreaberta
 com meu pé descoberto procuro coberta
 que está sempre torta

e o escuro de fora penetra a luz
 e invade meu quarto
 e eu desesperada e beirando infarto
 suplico jesus

e eu lavo o rosto e a água da pia
 tem gosto de sangue
 e tão suja que estou me imagino num mangue
 feroz
 frágil
 fria

quero que a medida desse mundo seja o passo
pelo menos nos pedaços de chão duro
que a braçada meça os alagados e que o riso
meça os dias muitos que teremos juntos
que os abraços meçam frio e que colheres cheias
sejam a corrência dos dias de fome

que o amor se torne imensurável
e acabe com a distância que existe entre os homens.

Anaxandra se batia para achar o matiz certo
traiçoeiro o mar aberto
a si camaleonava
de acordo com a dança de Apolo pelo céu

variava do turquesa ao mais brasil tom do mel

muito à areia sentava, queimando seu pelo lindo
ao rei-astro seduzindo
e a todos que passavam
e ensimesmada só pensava no vil pigmento

pitoresca era ela mesmo em seu pior momento

sem achar tonalidade e empanada de areia
Euro-Aquilão no rosto
levantou-se de sua canga
e pensavam os meninos: o que deu na Anaxandra?

pesquisava a fundo a cromatização mediterrânea.

há os que às moitas se lançam
fugindo do fim que os busca ao encalço
há os que correm, que fogem
e não se entregam enquanto há espaço
há os que fincam os dedos
descalços no solo e brandindo o aço
gritam que haverá luta
e a morte os come com leite e melaço

nós porém já não corremos
não mais que esperamos o tempo passar
nós nos sentamos sozinhos na terra
ouvindo o vento falar
nós não bradamos à morte
nós a seduzimos
dizemos amar
ela não mais nos enxerga
nós somos os que nos pretendem matar

arrastadas as folhas pelo vento
não se sabem perdidas/inseguras
só se deixam levar bem satisfeitas;

apodrecem nos cantos dos asfaltos
ostracismo abraçam a contento –
mas virar pó num pote de cimento
os altivos homens tomam por desfeita.

poderíamos culpá-los se é divina
a escolha de dotar-lhes de orgulho
em seguida os forçando a um mergulho
na areia quente do esquecimento?
lograríamos contar todas as folhas
ou dar cabo das malditas incertezas
se aquele que isso pode forra a mesa
a que nos sentamos inadvertidos?

‘homens’ ‘men’ ‘maschi’ ‘mann’ – somos ligados
pelo fim e também pelo começo
navegar sem destino é o preço
da sorte de saber ser (azar velado).

Aceso

outra vez a criação me procura humilhar
dessa vez
quase mil
os mosquitos.
uma tela os protege de mim e
com asas soberbas me zombam deitado.

afiando os dentes na tela
(para eles grade)
me xingam viado.
se soubessem nome mais pesado por certo usariam
(por sorte não há)

E COM PELE MACIA E INTATA DE DENTES
PERFURO A NOITE ACESO
E ME CUSPO E ME SINTO E ME TOCO
de tudo de errado que fiz nos meus dias

ignoro os gritos das asas e nu
faço o que fez Davi no terraço
inspirado por tudo o que é belo e me excita entôo poema nefasto.

COQUEIRAL

Por MATILDE CAMPILHO (-suspiro-)

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.