O mago

Havia na terra de Mim muitos seres
que pouco ou nada em comum possuíam
mas prevalecia o respeito:
sim, cada um deles falava a seu tempo.

Havia um homem chamado fernando
que os outros tomaram por líder mas ele
não tinha intenção de reger:
o fazia pois a natureza mandava.

Até que chegou às planícies de Mim
o estranho Zoloft, mago perfeito,
botando em fernando defeitos
(fernando babava enquanto dormia).

E assim entregava fernando o governo
de Mim ao tirano Zoloft, o mago.
sentiam os seres e também fernando
que o fim se acercava – e riam.

quanto mais eu me empenho
mais frustrado vou ficando
não pretendo arrancar um
“coitadinho do fernando”
mas as quinas vão surgindo
e arrombando meus dedinhos
deixei de colher as flores
cabreiro com os espinhos
sim, estou inconformado
“mas você não era disso”
meu pudim desenformado
veio amargo e quebradiço

meia idade tá na cola
não que esteja eu com medo
meto o bico nessa bola
e destronco outro dedo

na noite do amanhã opcional
à mesa eu trarei uma balança
pra procurar um grama de esperança
no peito que eu ostento estrelado.
pois, apesar das glórias do passado,
não ouso esperar paz do meu futuro.

na noite do amanhã opcional,
pra ver se ainda sigo necessário,
de minha sorte farei inventário
mas creio que ela não se faz presente.
se demoção não encontrar na mente,
à imagem do cruzeiro, resplandeço.

na noite do amanhã opcional,
gigante, me darei à natureza.
ao belo, forte, impávido concreto.

quando me sinto sozinho
minha barriga esquenta
minha testa fica cinza
meu bilau fica magenta
vago altivo pela rua
misto de vadio e rei
ou gasto o que não tenho
em produtos do Ebay
abro a rede social
e curto tudo o que vejo
(já nem sei o que prefiro
– mais um like ou um beijo)
digo ir a um evento
marco alguém numa postagem
apago a luz e me cubro
mas não me foge a imagem
do dia que eu não tive
da mulher que não me ama
da sua cara lendo isso
– como é triste a minha cama.

poema-caralho

eu sou um temor eterno
de tudo que o mundo pisa
da mais forte das mulheres
à torta torre de pisa –
que vai cair e matar
meu eu sempre distraído
pois ao pé dela eu choro
ingrato por ter nascido.

eu sou um ressentimento
cru, pelado e curioso
que me mastiga as carnes
e me chupa até o osso.
eu me jogo nu no piso
piso em mim – o oroboro –
e acordo de ressaca
abraçado a um cachorro.

no mundo há cães memoráveis
– veja a Lassie e o Rin-Tin-Tin –
mas não é desse feitio
o cão que se abraça a mim:
me arranha as canelas
e me rasga todo o terno
se eu não me largo dele
me arrasta pro inferno.

eu sou A frustração mor
já nasci na pré-escola
com lancheira do seninha
e mochila do frajola.
esperava ser doutor
ou o novo Zé Ramalho.
só logrei ser curador
desse poema-caralho.

Elza

há um fio de cabelo no céu da minha boca
 e ele não é meu
 e por isso meu amor não me conheceu
 nisso fiquei louca

eu acordo no meio da noite e a porta
 toda entreaberta
 com meu pé descoberto procuro coberta
 que está sempre torta

e o escuro de fora penetra a luz
 e invade meu quarto
 e eu desesperada e beirando infarto
 suplico jesus

e eu lavo o rosto e a água da pia
 tem gosto de sangue
 e tão suja que estou me imagino num mangue
 feroz
 frágil
 fria

quero que a medida desse mundo seja o passo
pelo menos nos pedaços de chão duro
que a braçada meça os alagados e que o riso
meça os dias muitos que teremos juntos
que os abraços meçam frio e que as colheres cheias
sejam a corrência dos dias de fome

que o amor se torne imensurável
e acabe com a distância que existe entre os homens.

Anaxandra se batia para achar o matiz certo
traiçoeiro o mar aberto
a si camaleonava
de acordo com a dança de Apolo pelo céu

variava do turquesa ao mais brasil tom do mel

muito à areia sentava, queimando seu pelo lindo
ao rei-astro seduzindo
e a todos que passavam
e ensimesmada só pensava no vil pigmento

pitoresca era ela mesmo em seu pior momento

sem achar tonalidade e empanada de areia
Euro-Aquilão no rosto
levantou-se de sua canga
e pensavam os meninos: o que deu na Anaxandra?

pesquisava a fundo a cromatização mediterrânea.

há os que às moitas se lançam
fugindo do fim que os busca ao encalço
há os que correm, que fogem
e não se entregam enquanto há espaço
há os que fincam os dedos
descalços no solo e brandindo o aço
gritam que haverá luta
e a morte os come com leite e melaço

nós porém já não corremos
não mais que esperamos o tempo passar
nós nos sentamos sozinhos na terra
ouvindo o vento falar
nós não bradamos à morte
nós a seduzimos
dizemos amar
ela não mais nos enxerga
nós somos os que nos pretendem matar