two times today I’ve seen people amazed by Adam Driver’s feet.
as I watched Paterson, a movie,
Paterson’s girl called those feet ‘wonderful’,
and Paterson (a poet) was played by Adam Driver.
later, as I youtubed a little,
Adam Driver himself was at a talkshow
and he was using black leather red-bottom shoes
whose new-looking pleasantness could make us feel miserable
but it strangely didn’t,
for despite the wonderfulness of Driver’s feet,
his feet are as gentle as gentle thin people are about my obesity:
or those feet are pretending we weren’t there
or they are lying.
either way, they are the best feet, and for that I hate them.

batuque é um negócio louvável
eu mesmo batuco com toda energia
mas, veja, não quero que o mundo inteiro batuque
(horrendo seria)
pois nem toda mão sabe o toque
que eu gosto
o toque que a muitos agrada

se é pra ouvir o batuque de todos
no caso
prefiro ouvir nada.

sindicância divina

prometi pra galera do trampo
que arrumaria um presépio esse ano.
não: ninguém me pediu um presépio,
eu ofereci e não sei se eles querem.
vou fazer um presépio com as próprias mãos
(o pior feito por mãos humanas)
e vou pô-lo no centro de tudo
de modo que não seja ignorado.
jazerá na presença de todos
a monstruosidade que a jesus emula,
e assustar-se-ão as mulheres
que inadvertidas entrarem à sala.
e assim passarão-se alguns dias
até que às horas caladas da noite
uma negra que limpa as salas
porá o messias num saco de lixo.
copiosamente chorarei no outro dia
em meio aos tapinhas nas costas.
e instaurar-se-á sindicância
pra ver se o destino do cristo descobrem.
mas então me erguirei e com voz de trovão bradarei pra que todos escutem:
farei outro jesus, e josé e maria, e vacas e cães e outros mulos.

O mago

Havia na terra de Mim muitos seres
que pouco ou nada em comum possuíam
mas prevalecia o respeito:
sim, cada um deles falava a seu tempo.

Havia um homem chamado fernando
que os outros tomaram por líder mas ele
não tinha intenção de reger:
o fazia pois a natureza mandava.

Até que chegou às planícies de Mim
o estranho Zoloft, mago perfeito,
botando em fernando defeitos
(fernando babava enquanto dormia).

E assim entregava fernando o governo
de Mim ao tirano Zoloft, o mago.
sentiam os seres e também fernando
que o fim se acercava – e riam.

na noite do amanhã opcional
à mesa eu trarei uma balança
pra procurar um grama de esperança
no peito que eu ostento estrelado.
pois, apesar das glórias do passado,
não ouso esperar paz do meu futuro.

na noite do amanhã opcional,
pra ver se ainda sigo necessário,
de minha sorte farei inventário
mas creio que ela não se faz presente.
se demoção não encontrar na mente,
à imagem do cruzeiro, resplandeço.

na noite do amanhã opcional,
gigante, me darei à natureza.
ao belo, forte, impávido concreto.

quando me sinto sozinho
minha barriga esquenta
minha testa fica cinza
meu bilau fica magenta
vago altivo pela rua
misto de vadio e rei
ou gasto o que não tenho
em produtos do Ebay
abro a rede social
e curto tudo o que vejo
(já nem sei o que prefiro
– mais um like ou um beijo)
digo ir a um evento
marco alguém numa postagem
deito o corpo e me cubro
mas não me foge a imagem
do dia que eu não tive
com a mulher que não amo
(que jamais lerá um destes
versos toscos que declamo).

poema-caralho

eu sou um temor eterno
de tudo que o mundo pisa
da mais forte das mulheres
à torta torre de pisa –
que vai cair e matar
meu eu sempre distraído
pois ao pé dela eu choro
ingrato por ter nascido.

eu sou um ressentimento
cru, pelado e curioso
que me mastiga as carnes
e me chupa até o osso.
eu me jogo nu no piso
piso em mim – o oroboro –
e acordo de ressaca
abraçado a um cachorro.

no mundo há cães memoráveis
– veja a Lassie e o Rin-Tin-Tin –
mas não é desse feitio
o cão que se abraça a mim:
me arranha as canelas
e me rasga todo o terno
se eu não me largo dele
me arrasta pro inferno.

eu sou A frustração mor
já nasci na pré-escola
com lancheira do seninha
e mochila do frajola.
esperava ser doutor
ou o novo Zé Ramalho.
só logrei ser curador
desse poema-caralho.

Elza

há um fio de cabelo no céu da minha boca
 e ele não é meu
 e por isso meu amor não me conheceu
 nisso fiquei louca

eu acordo no meio da noite e a porta
 toda entreaberta
 com meu pé descoberto procuro coberta
 que está sempre torta

e o escuro de fora penetra a luz
 e invade meu quarto
 e eu desesperada e beirando infarto
 suplico jesus

e eu lavo o rosto e a água da pia
 tem gosto de sangue
 e tão suja que estou me imagino num mangue
 feroz
 frágil
 fria

quero que a medida desse mundo seja o passo
pelo menos nos pedaços de chão duro
que a braçada meça os alagados e que o riso
meça os dias muitos que teremos juntos
que os abraços meçam frio e que as colheres cheias
sejam a corrência dos dias de fome

que o amor se torne imensurável
e acabe com a distância que existe entre os homens.