batuque é um negócio louvável
eu mesmo batuco com toda energia
mas, veja, não quero que o mundo inteiro batuque
(horrendo seria)
pois nem toda mão sabe o toque
que eu gosto
o toque que a muitos agrada

se é pra ouvir o batuque de todos
no caso
prefiro ouvir nada.

sindicância divina

prometi pra galera do trampo
que arrumaria um presépio esse ano.
não: ninguém me pediu um presépio,
eu ofereci e não sei se eles querem.
vou fazer um presépio com as próprias mãos
(o pior feito por mãos humanas)
e vou pô-lo no centro de tudo
de modo que não seja ignorado.
jazerá na presença de todos
a monstruosidade que a jesus emula,
e assustar-se-ão as mulheres
que inadvertidas entrarem à sala.
e assim passarão-se alguns dias
até que às horas caladas da noite
uma negra que limpa as salas
porá o messias num saco de lixo.
copiosamente chorarei no outro dia
em meio aos tapinhas nas costas.
e instaurar-se-á sindicância
pra ver se o destino do cristo descobrem.
mas então me erguirei e com voz de trovão bradarei pra que todos escutem:
farei outro jesus, e josé e maria, e vacas e cães e outros mulos.

criptonita II

possuía o super poder do controle
sobre a matéria do próprio corpo
possuía o super poder do controle
sobre a matéria do próprio pensamento
possuía o super poder do controle
sobre a matéria do próprio sentimento

abriu mão do último e perdeu os outros dois

qualquer um é super homem
na fortaleza da sua solidão.

O mago

Havia na terra de Mim muitos seres
que pouco ou nada em comum possuíam
mas prevalecia o respeito:
sim, cada um deles falava a seu tempo.

Havia um homem chamado fernando
que os outros tomaram por líder mas ele
não tinha intenção de reger:
o fazia pois a natureza mandava.

Até que chegou às planícies de Mim
o estranho Zoloft, mago perfeito,
botando em fernando defeitos
(fernando babava enquanto dormia).

E assim entregava fernando o governo
de Mim ao tirano Zoloft, o mago.
sentiam os seres e também fernando
que o fim se acercava – e riam.

na noite do amanhã opcional
à mesa eu trarei uma balança
pra procurar um grama de esperança
no peito que eu ostento estrelado.
pois, apesar das glórias do passado,
não ouso esperar paz do meu futuro.

na noite do amanhã opcional,
pra ver se ainda sigo necessário,
de minha sorte farei inventário
mas creio que ela não se faz presente.
se demoção não encontrar na mente,
à imagem do cruzeiro, resplandeço.

na noite do amanhã opcional,
gigante, me darei à natureza.
ao belo, forte, impávido concreto.

quando me sinto sozinho
minha barriga esquenta
minha testa fica cinza
meu bilau fica magenta
vago altivo pela rua
misto de vadio e rei
ou gasto o que não tenho
em produtos do Ebay
abro a rede social
e curto tudo o que vejo
(já nem sei o que prefiro
– mais um like ou um beijo)
digo ir a um evento
marco alguém numa postagem
apago a luz e me cubro
mas não me foge a imagem
do dia que eu não tive
da mulher que não me ama
da sua cara lendo isso
– como é triste a minha cama.

poema-caralho

eu sou um temor eterno
de tudo que o mundo pisa
da mais forte das mulheres
à torta torre de pisa –
que vai cair e matar
meu eu sempre distraído
pois ao pé dela eu choro
ingrato por ter nascido.

eu sou um ressentimento
cru, pelado e curioso
que me mastiga as carnes
e me chupa até o osso.
eu me jogo nu no piso
piso em mim – o oroboro –
e acordo de ressaca
abraçado a um cachorro.

no mundo há cães memoráveis
– veja a Lassie e o Rin-Tin-Tin –
mas não é desse feitio
o cão que se abraça a mim:
me arranha as canelas
e me rasga todo o terno
se eu não me largo dele
me arrasta pro inferno.

eu sou A frustração mor
já nasci na pré-escola
com lancheira do seninha
e mochila do frajola.
esperava ser doutor
ou o novo Zé Ramalho.
só logrei ser curador
desse poema-caralho.

Elza

há um fio de cabelo no céu da minha boca
 e ele não é meu
 e por isso meu amor não me conheceu
 nisso fiquei louca

eu acordo no meio da noite e a porta
 toda entreaberta
 com meu pé descoberto procuro coberta
 que está sempre torta

e o escuro de fora penetra a luz
 e invade meu quarto
 e eu desesperada e beirando infarto
 suplico jesus

e eu lavo o rosto e a água da pia
 tem gosto de sangue
 e tão suja que estou me imagino num mangue
 feroz
 frágil
 fria

quero que a medida desse mundo seja o passo
pelo menos nos pedaços de chão duro
que a braçada meça os alagados e que o riso
meça os dias muitos que teremos juntos
que os abraços meçam frio e que as colheres cheias
sejam a corrência dos dias de fome

que o amor se torne imensurável
e acabe com a distância que existe entre os homens.

Anaxandra se batia para achar o matiz certo
traiçoeiro o mar aberto
a si camaleonava
de acordo com a dança de Apolo pelo céu

variava do turquesa ao mais brasil tom do mel

muito à areia sentava, queimando seu pelo lindo
ao rei-astro seduzindo
e a todos que passavam
e ensimesmada só pensava no vil pigmento

pitoresca era ela mesmo em seu pior momento

sem achar tonalidade e empanada de areia
Euro-Aquilão no rosto
levantou-se de sua canga
e pensavam os meninos: o que deu na Anaxandra?

pesquisava a fundo a cromatização mediterrânea.