A noite nem bem cedia a vez ao dia quando os gritos se deram e logo cessaram. Um palmo a partir da pata esquerda foi a meta da punhalada, e após grandes segundos o ar deixava o pulmão do bicho, o sangue e a gordura igualavam as raças. O homem, indiferente ao cheiro que atrai os cães e ao barulho que afasta a maioria das gentes, separava a gordura do sabão, o suã, os miúdos. Tudo se aproveita da morte. Quando o ocaso da lua era mais do que inegável, a mente do matuto se acostumava com a ideia de um dia anômalo. A ida da menina para a cidade preocupava: o povo da mãe dela não entende os modos de moça da roça. Ainda a mãe tinha os conhecimentos (e mesmo assim a doença levou). E os rapazes. Se pensasse muito neles, a viagem acabaria cancelada.
É fisicamente impossível um porco olhar para o céu.
A moça acordou e foi banhar. Assim como a mãe era feia, mas sabia das coisas da casa e do mato, e não fazia pergunta. De fato, não era raro dia em que não se falava nada na chácara. De manhã cedo tinha a escola, e na volta tinha a lida. Cada um sabia seu afazer e o fazia. Antigamente tinha a missa, e o ônibus passava buscar, um domingo por mês. Mas a igreja não é lugar pra gente do mato, isso ele tinha aprendido fácil.
É proibido criar porco em território israelense. A pena é a morte do porco.
A moça se ajeitou e arrumou a malinha. A mesma que a mãe trouxe da cidade há alguns poucos anos talvez. O homem não queria pensar no tempo. Pensar no passado ou no futuro não fazia muita diferença naquele momento. Os trapos estavam impecáveis de limpos.
Um sinal de que vem chuva é ver os porcos andarem de um lado para o outro com paus na boca.
A carta estava nos correios junto com o cheque da cooperativa. A avó queria a menina perto. Disse da escola, das meninas vizinhas, de marido, de companhia. A carta era boa, pois a moça foi quem leu pro homem escutar, e ela leu fácil. O homem tinha os receios e os orgulhos, mas na mesma hora viu que não tinha as respostas. Se ela não fosse, o que ele ia fazer dela? A roça não bastava à moça.
Os porcos se chafurdam na lama para se refrescar, pois não conseguem suar.
O povo da cidade vinha pro almoço que já estava bonito. Do cheiro de porco frito não se cansa, pensou o homem. A moça temperou as folhas. A quirera estava viva e a moça contenta. O homem contemplava com orgulho o que ele havia plantado e colhido. Nada faria vergonha às visitas.
Se um porco tiver um olho azul e o outro castanho, tem apenas três estômagos.
Os parentes chegaram bem depois do almoço, num carro japonês (explicou o cunhado). A homem via o encantamento da moça e a indiferença da visitante, que pouco abriu a boca, e só o fez para reparar nas coisas. Aquilo não era certo. A moça não se despediu do homem. O cunhado fez gracejo da maleta. O carro japonês levantou lama e respingou o pé do homem. Ele não havia entendido a explicação do cunhado sobre o carro japonês, e olhava pro céu. Quando olhou pra moça, viu um rosto diferente daquele que via chegando da escola. A moça gostou do cheiro do carro, provavelmente entendia de carro japonês, pensou. Quando viu a moça pela última vez, ela estava sorrindo ao contemplar as maravilhas dos japoneses. O homem ali ficou com os pés sujos de lama.
O porco é o único animal que se queima com o sol além do homem.
Após grandes meses, os cheques da cooperativa mudaram de destinatário. Da morte tudo se aproveita.

Saiu de mim em 29/01/2013, dia internacional dos sobreviventes da coceira.

Hoje conversei com um mendigo fétido enquanto trabalhava na praça Carlos Gomes. Ele era bastante simpático e incoerente. Incoerente como só um mendigo incoerente consegue ser. A incoerência desse mendigo começava pelo fato de possuir um terreno (mas não uma casa, o que o mantem na condição de sem-teto). Não perguntei o nome dele, o que me frustra, e não sei se deveria tê-lo feito; Tenho grande facilidade em descobrir tipos outrora famosos vivendo à esclarecedora sombra da urbe.

Dentre os feitos fantásticos narrados pelo mendigo, posso citar:
– Ter sobrevivido a uma injeção letal aplicada pela F.A.S, a um tiro na mão, a um ataque de cão, a um chute no saco aplicado por uma criança e a várias tentativas de suicídio.
– Ter conhecido o finado quartel da praça Rui Barbosa.
– Ter ganhado de uma freira um relógio cujos ponteiros brilhavam no escuro (que fora-lhe roubado junto com um rádio de pilha ou dois).

Ele carregava uma bíblia e eu pensei em pedí-la, em parte porque achei bonita mas principalmente porque achei que ela era culpada por grande parte da incoerência de sua figura. Ele demonstrou grande interesse em meu bem estar. Perguntou se eu era militar várias vezes. Perguntou porque eu sou tão gordo; e em seguida, onde eu conseguia tanta comida. Ficou desconfiado: por que eu raspo a cabeça se não sou militar. Falou-me sobre as bocetas, e como ele havia chupado sua primeira a poucos dias. Disse que preferia as brancas e raspadas, pois as mais escuras e naturais são “catinguentas”, o que não fez muito sentido em razão de seu cheiro. Disse que ainda matará um taxista. Perguntei qual e ele disse “qualquer um”. Todos são caguetas, possuem rádios e denunciam seus crimes. Disse que vai assaltar um posto de combustíveis. Disse que há 3 milhões em cada um, além de cigarros, e que pode-se pegar um taxi para fugir. Nesse momento a ideia de matar o taxista fez mais sentido.

Perguntou se eu era militar. Outro mendigo mais complicado chegou e puxou conversa. E ele sumiu. Não vi quando ou como. Mas sentirei saudades.

Eu em hoje;