Vacina antiteTÂNATO

É possível ser UMA pessoa? Temos uma vida fragmentada em momentos. e com uma frequência indefinida mudamos, isso é inegável, e também é certo que não podemos impedir esse fluxo de mudança. A questão é: até onde podemos nos ancorar a um desses fragmentos, e de que forma podemos nos manter num momento de nossa opinião pessoal? Não que eu almeje a proto teimosia. A urge é a afirmação constante de um determinado momento sobre os que virão. É a garantia de que todos os momentos tomem esse por referência, por régua. Não quero sublimar quem sou hoje, nem minha prioridade atual pra dar lugar a um novo eu que parece inevitável. Não pretendo também afirmar que atingi uma definição pessoal concreta. A verdade é que não encontro paz em mim, mas uma guerra estranhamente doce e extremamente coerente. Pareço haver conciliado fé, ciência e emoção. Esta, por sinal, está totalmente descontrolada, mas isso não me desespera. Será isso uma puberdade intelectual?

Ontem novamente sonhei com o urso. E preferiria que não fosse sonho. Quando ele se aproximou de mim novamente me atrevi a enfrentá-lo com as mãos limpas. E novamente fui devorado. Sempre acordo e penso que deveria me fingir de morto ou fugir na próxima vez. Mas no sonho não há senso de próxima vez, o que me faz pensar no significado da repetição dessa morte.  Esse enigma de Tânato (o único que me resta) vem me incomodando há pelo menos um ano, mas só agora o relaciono a essa busca da definição pessoal. Se o urso (agora autófago) ilustra essa sobreposição de fragmentos, fugir não faria sentido, pois a fuga obviamente não teria fim, e fingir-me de morto consiste numa negação do momento atual, um ímpeto cego de ignorância. Ao me entregar ao urso estou cedendo parte de mim a mim mesmo. Mastigo minha carne e gero vida num segundo ser. O urso é a evolução do meu pensamento. Essa conclusão me alentou. Tenho a impressão de que o urso deixou definitivamente o bosque do meu sono.

E um poema de agora:

Metrônomo.

Há amargura na fuga.
Vazio sou no empate.
Há plenitude na vida
Se alguém te causa vontade
Mas não há quem me apeteça
Só sou e sôfrego traço
Passos na areia, ou concreto
E os dias me são cansaço
O tom errado, errado,
Tédio ditando o compasso,
Vivo e sempre e sempre
Mofo, vontade, mormaço.