COQUEIRAL

Por MATILDE CAMPILHO (-suspiro-)

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

imagine se deus
pra chocar os ateus
desse fim à ponte Golden Gate
com seus dentes imensos ou imensuráveis
mordendo-a pra longe da base
atirando os carros pra dentro
da corrente fria das águas do estreito
afogando assim as mamães (e os bebês
amarrados aos bebê conforto)
prestaria favor aos humanos restantes
(exceto aos que usam a ponte)
pois daria mais chances a todos
(exceto aos bebês que morreram na ponte)
de evitar estadia no inferno
(destino das mães atiradas da ponte).
pois o povo todo, arrependido
(ou talvez simplesmente por medo de ponte),
lotaria as igrejas nos cultos
e deus voltaria ao seu Santo Monte.

se isso acontecer me consagro e abro uma igreja em Belo Horizonte.

um vale com água até o pescoço
acaba e começa na faixa de areia
a que chamam praia os homens
que à língua do velho camões dizem sua

no fundo do vale estão pregos e
vasos
atlantes
cornetas
bigornas
urânio
que às máquinas duras vazias por dentro dos homens
dá força e envenena

e peixes também com lanternas nas testas
e tetas nos peitos e patas nos ombros
que nunca da solar menção tomam nota
e disso
se o podem
se gabam

porém mais que eles se gabam os homens
do gozo que extraem de sua estultícia
que
sabe-se
é muito mais funda e oscura que um vale
com água até o pescoço

do canto da boca me escorre um caldo que se não me escorre me afoga
(preenchendo os furos da cara e os regos do córtex dessa cabeça)
e passa do queixo e pinga formando uma poça de formato estranho
me lembra um pássaro gordo que quer me obrigar a pular mas não pode

exaltam a poça
meu pássaro gordo
(buscam inflar o meu ego?)
reparam que o bico se mexe e as pontas das asas preveem o futuro
em meio aos louvores à minha ocasional obra mastigo segredo
meu corpo de homem esconde um espírito feto
pelado e com medo

do canto da boca me jorra esse mel nanquinoso que salva meus dias
do canto da boca me escorre meu sangue e veneno
vulgar poesia

Valor

Ajoelhado no meio da suja e hipotética praça
simulou merecer a moeda que logo viria
a entregar satisfeito a um novo e temível Caronte.
E com toda certeza e nenhuma pensou, falo à fronte,
que o banco a que junto estava servia a pouco
(em horas mais solares)
à senhora e ao seu filho menino que abrindo o sorvete
sem nenhuma culpa
chupa.

Acabado o banquete que nada alimenta se erige
despedindo-se ou não do varão que lhe dá muito pouco.
Vasculhando com olhos soberbos os cantos do largo
não atenta à voz do passado o chamando de louco.
(Haveria, humano, de haver patriarcas notáveis?
quiçá nobres senhores ou satrapas onipotentes,
que em toda a excelência jamais, é certo, possuíram
pedras tão preciosas quanto as de seu filho indigente)
Sendo tolo animal, como todos os que compartilham
de Adão a semente abundante, então regozija
ao lograr novamente a derrota que tanto deseja.
Como coube aos homens de Ulisses em passadas eras,
acendendo o cachimbo de Circe se joga no lodo.
E levanta-se exausto e sem força e com ímpeto oco
uma hora após concluir o anterior ciclo
já medindo o destino e galgando os passos que nunca
deixará de galgar (deste lado do Estige).
Infinito.

eu morri
afogado num espaço
não menor do que meu contentamento
não maior do que minha insegurança

eu morri
não desminto e não faço
mais questão de pronar à superfície

pois morri

em um texto não diferente deste
viração de nanquim
(cadê o ralo)
faleci eu assim
engarrafado
num poema
à procura do gargalo

erijo frágeis minaretes
feitos de ar: meus sonhos.
e nele crio meus meninos 
gordos de promessas.
meu hoje é protético,
meu amanhã é coto.
só quero me desimportar, semblante pegajoso.
a água é sempre a mesma, e eu sempre o mesmo – escroto,
mais digo: sou humano.
repito: sou um boto.

quando eu era japonês larguei a
capa e a espada e a outra espada
menorzinha que servia pra cortar
as frutas todas que eu comia mui-
tas. as larguei no chão poroso
dum caminho torto pois que quase
todos tortos no japão se fazem
e segui sem capa sem espada sem
espada menorzinha pela tortuosa
via e via quantos que a mim mi-
ravam e se admiravam como a di-
zer não era aquele samurai? co-
mo pode agora viajar desencapa-
do e sem espada (mesmo sem por-
tar a menorzinha), terá ele si-
do assaltado? mas não fui, lar-
guei a espada por vontade minha
e segui a demorar os olhos nos
arrozes todos do caminho a falar
de coisas boas. Quão formosos
são meus pés.

Eu poeto nesse quarto escondido
nesse quarto escondido e complicado.
nesse quarto, complicada paisagem.
nesse quarto verso quebro o encanto
e prossigo a dizer novas palavras
nesse rabiscar online de mentiras
nesse protelar do bom desligamento,
quero me livrar mas caio novamente
nesse estado de iniciar versos com

nesse. oxalá tal vício desaparecesse
nesse bloco de palavras que amontoo
nesse quadrado (que faço de poema
nesse blog que rejeita ter um tema)
nesse dia (nunca vi um mais quadrado).
esse dia foi bacana (de mentiras).
veja: já não me escraviza a palavra
nesse! minto. permaneço enfeitiçado.

abraço com pernas o chão
como o piolho à cabeça mas não.
ai de mim!
quantos ais terei ainda nesses
anos, 26 completo, quantos faltarão?
me procuro ver.
espelhos? não confio.
quem me pode ver e se mostrar
pra me ensinar a confiar?
me engano
nessa rima ou falta dela
e um metro escuro me serve de cela:
o 2015 não será a sela
sobre a qual montado a descobrirei
a descobrirei. talvez já a conheça.
a descobrirei. dos calos à cabeça.
e seremos juntos um e um somente
e ela acolherá de mim toda semente
ou se não seremos dois eternamente
ela que decida nossa companhia.

por favor, Senhor, que chegue logo o dia,
que ele chegue antes de eu furar o chão.
como o piolho à cabeça mas não.