há os que às moitas se lançam
fugindo do fim que os busca ao encalço
há os que correm, que fogem
e não se entregam enquanto há espaço
há os que fincam os dedos
descalços no solo e brandindo o aço
gritam que haverá luta
e a morte os come com leite e melaço

nós porém já não corremos
não mais que esperamos o tempo passar
nós nos sentamos sozinhos na terra
ouvindo o vento falar
nós não bradamos à morte
nós a seduzimos
dizemos amar
ela não mais nos enxerga
nós somos os que nos pretendem matar

arrastadas as folhas pelo vento
não se sabem perdidas/inseguras
só se deixam levar bem satisfeitas;

apodrecem nos cantos dos asfaltos
ostracismo abraçam a contento –
mas virar pó num pote de cimento
os altivos homens tomam por desfeita.

poderíamos culpá-los se é divina
a escolha de dotar-lhes de orgulho
em seguida os forçando a um mergulho
na areia quente do esquecimento?
lograríamos contar todas as folhas
ou dar cabo das malditas incertezas
se aquele que isso pode forra a mesa
a que nos sentamos inadvertidos?

‘homens’ ‘men’ ‘maschi’ ‘mann’ – somos ligados
pelo fim e também pelo começo
navegar sem destino é o preço
da sorte de saber ser (azar velado).

Aceso

outra vez a criação me procura humilhar
dessa vez
quase mil
os mosquitos.
uma tela os protege de mim e
com asas soberbas me zombam deitado.

afiando os dentes na tela
(para eles grade)
me xingam viado.
se soubessem nome mais pesado por certo usariam
(por sorte não há)

E COM PELE MACIA E INTATA DE DENTES
PERFURO A NOITE ACESO
E ME CUSPO E ME SINTO E ME TOCO
de tudo de errado que fiz nos meus dias

ignoro os gritos das asas e nu
faço o que fez Davi no terraço
inspirado por tudo o que é belo e me excita entôo poema nefasto.

COQUEIRAL

Por MATILDE CAMPILHO (-suspiro-)

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

imagine se deus
pra chocar os ateus
desse fim à ponte Golden Gate
com seus dentes imensos ou imensuráveis
mordendo-a pra longe da base
atirando os carros pra dentro
da corrente fria das águas do estreito
afogando assim as mamães (e os bebês
amarrados aos bebê conforto)
prestaria favor aos humanos restantes
(exceto aos que usam a ponte)
pois daria mais chances a todos
(exceto aos bebês que morreram na ponte)
de evitar estadia no inferno
(destino das mães atiradas da ponte).
pois o povo todo, arrependido
(ou talvez simplesmente por medo de ponte),
lotaria as igrejas nos cultos
e deus voltaria ao seu Santo Monte.

se isso acontecer me consagro e abro uma igreja em Belo Horizonte.

um vale com água até o pescoço
acaba e começa na faixa de areia
a que chamam praia os homens
que à língua do velho camões dizem sua

no fundo do vale estão pregos e
vasos
atlantes
cornetas
bigornas
urânio
que às máquinas duras vazias por dentro dos homens
dá força e envenena

e peixes também com lanternas nas testas
e tetas nos peitos e patas nos ombros
que nunca da solar menção tomam nota
e disso
se o podem
se gabam

porém mais que eles se gabam os homens
do gozo que extraem de sua estultícia
que
sabe-se
é muito mais funda e oscura que um vale
com água até o pescoço

do canto da boca me escorre um caldo que se não me escorre me afoga
(preenchendo os furos da cara e os regos do córtex dessa cabeça)
e passa do queixo e pinga formando uma poça de formato estranho
me lembra um pássaro gordo que quer me obrigar a pular mas não pode

exaltam a poça
meu pássaro gordo
(buscam inflar o meu ego?)
reparam que o bico se mexe e as pontas das asas preveem o futuro
em meio aos louvores à minha ocasional obra mastigo segredo
meu corpo de homem esconde um espírito feto
pelado e com medo

do canto da boca me jorra esse mel nanquinoso que salva meus dias
do canto da boca me escorre meu sangue e veneno
vulgar poesia

Valor

Ajoelhado no meio da suja e hipotética praça
simulou merecer a moeda que logo viria
a entregar satisfeito a um novo e temível Caronte.
E com toda certeza e nenhuma pensou, falo à fronte,
que o banco a que junto estava servia a pouco
(em horas mais solares)
à senhora e ao seu filho menino que abrindo o sorvete
sem nenhuma culpa
chupa.

Acabado o banquete que nada alimenta se erige
despedindo-se ou não do varão que lhe dá muito pouco.
Vasculhando com olhos soberbos os cantos do largo
não atenta à voz do passado o chamando de louco.
(Haveria, humano, de haver patriarcas notáveis?
quiçá nobres senhores ou satrapas onipotentes,
que em toda a excelência jamais, é certo, possuíram
pedras tão preciosas quanto as de seu filho indigente)
Sendo tolo animal, como todos os que compartilham
de Adão a semente abundante, então regozija
ao lograr novamente a derrota que tanto deseja.
Como coube aos homens de Ulisses em passadas eras,
acendendo o cachimbo de Circe se joga no lodo.
E levanta-se exausto e sem força e com ímpeto oco
uma hora após concluir o anterior ciclo
já medindo o destino e galgando os passos que nunca
deixará de galgar (deste lado do Estige).
Infinito.

V Prêmio Literário Portal Amigos do Livro 2015

Recebi ontem vários exemplares da antologia do V Prêmio Literário Portal Amigos do Livro 2015. Os livros chegaram como legítimas dádivas da serendipidade e me deixaram bastante contente. É sempre saudável ver seu nome impresso no encadernado, e o poema selecionado pelo prêmio, entitulado “Valor”, é um dos meus favoritos. Achei a edição bastante caprichada e a qualidade dos poemas de todos os participantes só faz valorizar minha participação nessa obra. Agradeço novamente à Editora Scortecci pelo estímulo aos escritores anônimos.

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